quinta-feira, 12 de março de 2009

Assim nascia a morte...

Nossa direção intelectual produziu brilhantes resultados, mas o cultivo da força de vontade sempre esteve abaixo de qualquer crítica. É claro que, por meio da educação, não se pode transformar um intelectual covarde em um homem corajoso. É evidente também que um homem, que não é covarde por natureza, mas prejudicado no desenvolvimento de suas qualidades individuais, desde que não receba uma educação que aperfeiçoe a sua força física e a sua destreza, será, logo de início, derrotado. É no exército que se pode avaliar o quanto a capacidade física estimula a coragem e desperta o espírito de ataque. A excelente instrução recebida pelos nossos soldados, durante a paz, inoculou, nesse gigantesco organismo, a fé sugestiva na sua própria superioridade, em proporções que os nossos próprios adversários não julgavam possível...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Vazio pela borda do cheio

Mas, ainda que o futuro não nos deixasse qualquer esperança, a singularidade da nossa existência neste momento preciso é o que nos encorajaria mais fortemente a viver segundo a nossa própria lei e conforme a nossa própria medida: quero falar sobre este fato inexplicável de vivermos justamente hoje, quando dispomos da extensão infinita do tempo para nascer, quando não possuímos senão o curto lapso de tempo de um hoje e quando é preciso mostrar nele, por que razões e para que fins, aparecemos exatamente agora. Temos de assumir diante de nós mesmos a responsabilidade por nossa existência, por conseguinte, queremos agir como os verdadeiros timoneiros desta vida e não permitir que nossa existência pareça uma contigência privada de pensamento. Esta existência quer que a abordemos com ousadia e também com temeridade, até porque, no melhor ou pior dos casos, sempre a perderemos. Por que se agarrar a este pedaço de terra, a esta profissão, por que dar ouvidos aos propósitos do vizinho? É igualmente provinciano jurar obediência a concepções que, em centenas de outros lugares, já não obrigam mais. O Ocidente e o Oriente são linhas imaginárias que alguém traça com um giz diante dos nossos olhos, para enganar a nossa pusilanimidade. Vou tentar alcançar a liberdade, diz para si a jovem alma. Não obstante, seria ela disso impedida pelo fato de o acaso querer que duas nações se odeiem e entrem em guerra, ou pelo fato de um mar separar dois continentes, ou pelo fato ainda de se ensinar em torno dela uma religião que já não existia há milhares de anos? Tu não és propriamente nada disso, diz ela para si. Ninguém pode construir no teu lugar a ponte que te seria preciso tu mesmo transpor no fluxo da vida - ninguém, exceto tu. Certamente, existem as veredas e as pontes e os semideuses inumeráveis que se oferecerão para te levar para o outro lado do rio, mas somente na medida em que te vendesses inteiramente: tu te colocarias como penhor e te perderias. Há no mundo um único caminho sobre o qual ninguém, exceto tu, poderia trilhar. Para onde leva ele? Não perguntes nada, deves seguir este caminho. Quem foi então que anunciou este princípio: 'Um homem nunca se eleva mais alto senão quando desconhece para onde seu caminho poderia levá-lo'?


Friedrich Nietzsche, Terceira Consideração Intempestiva: Schopenhauer Educador (pág. 140), Trad. Noéli C. de Melo Sobrinho. Edições Loyola.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Um pouco de virtude.

AOS LIBERTINOS


Voluptuosos de todas as idades e de todos os sexos, é a vós somente que dedico esta obra;
alimentai-vos de seus princípios que favorecem vossas paixões; essas paixões que horrorizam os
frios e tolos moralistas, são apenas os meios que a natureza emprega para submeter os homens
aos fins que se propõe. Não resistais a essas paixões deliciosas: seus órgãos são os únicos que
vos devem conduzir à felicidade.
Mulheres lúbricas, que a voluptuosa Saint-Ange seja vosso modelo; segui seu exemplo,
desprezando tudo quanto contraria as leis divinas do prazer, que dominaram toda sua vida.
Jovens, há tanto tempo abafadas pelo liames absurdos e perigosos duma virtude fantástica,
duma religião nojenta, imitai a ardente Eugênia; destruí, desprezai, com tanta rapidez quanto
ela, todos os preceitos ridículos inculcados por pais imbecis.
E vós, amáveis devassos, vós que desde a juventude não tendes outros freios senão vossos
desejos, outras leis senão os vossos caprichos, que o cínico Dolmancé vos sirva de exemplo; ide
tão longe quanto ele, se como ele desejais percorrer todas as estradas floridas que a lubricidade
vos prepara; convencei-vos, imitando-o, de que só alargando a esfera de seus gostos e suas
fantasias, e, sacrificando tudo ã volúpia, o infeliz indivíduo, conhecido sob o nome de homem e
atirado a contragosto neste triste universo, pode conseguir entremear de rosas os espinhos da
vida.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Já que Deus tudo ouve..


Apocalipse 20:4


4 E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008






E após uma longa jornada de vitórias e derrotas.
Caminhando. Abandonam sua cidade.
Destruída pela fúria de seu criacionismo.
E nós, para onde caminharemos?

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Quem tem fome não sabe o que come.

...Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a
frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria
ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se
detinha, esperando as pessoas, que se retardavam.
Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o
papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam
descansado, a beira de uma poça: a fome apertara demais os
retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia
jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava
lembrança disto...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

God bless the "human race" ?!?!

NIETZSCHE, F. W. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Cia das Letras. 2005. 179 p.

Dissertação I: “Bom e mau”, “bom e ruim”

Somente no âmbito nessa forma essencialmente perigosa de existência humana, a sacerdotal, é que o homem se tornou um animal interessante, apenas então a alma humana ganhou profundidade num sentido superior, e tornou-se – e estas são as duas formas fundamentais da superioridade até agora tida pelo homem sobre as outras bestas”. (NIETZSCHE. 2005. p. 25. Afor 6. § 1).

Os judeus, aquele povo de sacerdotes que soube desforrar-se de seus inimigos e conquistadores apenas através de uma radical tresvaloração dos valores deles, ou seja, por um ato da mais espiritual vingança. Assim convinha a um povo sacerdotal, o povo da mais entranhada sede de vingança sacerdotal. Foram os judeus que com apavorante coerência, ousaram inverter a equação de valores aristocrática (bom = nobre = poderoso = belo = feliz = caro aos deuses), e com unhas e dentes (os dentes do ódio mais fundo, o ódio impotente) se apegaram a esta inversão, a saber, ‘os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança – mas para vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também eternamente os desventurados, malditos e danados”. (NIETZSCHE. 2005. p. 25-26. Afor 7. § 1).